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Da Cova ao Altar do Papa: a ressurreição de Paolo Sirignano pela Fazenda da Esperança Há cerca de cinco anos, Paolo Sirignano era um homem sem rumo...
Em Ariquemes, Paolo encontrou pessoas que decidiram enxergar nele algo que ele próprio já não conseguia ver. Recebeu apoio da assistência social e foi acolhido por Dona Marli, que lhe ofereceu abrigo quando ele já não tinha para onde ir. Foi por meio dela que conheceu o Padre José Leylson, sacerdote que lhe apresentou a Fazenda da Esperança São Francisco de Assis, em Alto Paraíso.
Por Administrador
Publicado em 16/07/2026 18:55 • Atualizado 16/07/2026 19:01
Fazenda da Esperança do Estado de Rondônia Unidade Alto Paraiso
Por: Mario Quevedo

Da Cova ao Altar do Papa: a ressurreição de Paolo Sirignano pela Fazenda da Esperança 

Há cerca de cinco anos, Paolo Sirignano era um homem sem rumo às margens da rodovia em Porto Velho, Rondônia. Com apenas 40 quilos, consumido pelo crack e carregando uma história marcada por prisões, tráfico internacional de drogas e overdoses na Europa e no Brasil, ele aguardava apenas a morte. Hoje, o italiano de fala mansa e olhar sereno percorre as mesmas ruas de Roma onde um dia traficou e consumiu drogas, mas agora como missionário da Fazenda da Esperança, levando a milhares de pessoas a certeza de que nenhuma vida está perdida quando encontra uma nova oportunidade.

Em visita ao Brasil para rever a esposa e os filhos — com quem retomou o convívio após anos de separação e silêncio — Paolo compartilha uma trajetória de dor, queda e ressurreição que tem como ponto central a Fazenda da Esperança São Francisco de Assis, em Alto Paraíso (RO), comunidade onde afirma ter recebido não apenas tratamento para abandonar as drogas, mas uma nova razão para viver.

Infância de ouro e o desmoronamento na Itália...

Nascido em uma família de classe média alta na Itália, Paolo teve uma infância tranquila. Filho único, estudou em colégios salesianos e recebeu uma sólida formação católica. O futuro parecia promissor, até que, aos 16 anos, uma tragédia mudou completamente o rumo de sua vida.

A morte repentina do pai provocou um verdadeiro desmoronamento na família. Além da dor da perda, vieram problemas financeiros e judiciais que levaram ao fechamento do comércio da família. Sua mãe passou a trabalhar como faxineira para garantir o sustento da casa, enquanto Paolo abandonava os estudos para ajudar nas despesas.

O luto e a revolta abriram espaço para o ressentimento.

"Naquele momento morreu também o menino que eu era", recorda.

Pouco tempo depois, aproximou-se da criminalidade e, aos 17 anos, foi preso pela primeira vez por tráfico de haxixe.

"Saí do Instituto de Menores formado na criminalidade", conta.

A prisão, que deveria representar uma oportunidade de recuperação, acabou servindo como uma escola do crime. Vieram os assaltos, a participação em quadrilhas e o envolvimento cada vez maior com cocaína, heroína e o tráfico internacional.

Durante anos, Paolo percorreu Itália, Holanda e Espanha transportando drogas. Sobreviveu a diversas overdoses e viu sua vida afundar cada vez mais.

No final dos anos 1990, tornou-se um morador de rua na Estação Central de Roma, onde dormia dentro de carros abandonados. Em um dos episódios mais dramáticos de sua história, foi sequestrado por traficantes rivais, levado encapuzado para uma área isolada e colocado dentro de uma cova, com uma arma apontada para sua cabeça.

Sobreviveu apenas porque recebeu a ordem de nunca mais voltar àquele território.

Sem qualquer perspectiva, aceitou trocar uma pena de prisão por tratamento em uma comunidade terapêutica na Itália, onde permaneceu durante dois anos.

O sonho brasileiro transformado em pesadelo

Após concluir aquele tratamento, Paolo veio ao Brasil como voluntário. Aqui conheceu a mulher que se tornaria sua esposa, constituiu família e acreditou estar começando uma nova vida.

Com o dinheiro obtido pela venda de um apartamento herdado em Roma, abriu um restaurante e comprou um imóvel. Aos olhos de todos, era um italiano bem-sucedido.

"Por fora eu parecia ter vencido. Por dentro, continuava completamente destruído", revela.

O consumo de cocaína e maconha nunca cessou totalmente e, aos poucos, a dependência voltou a dominar sua rotina. Vieram novamente as perdas: primeiro o restaurante, depois o apartamento.

A família mudou-se para Manaus praticamente sem recursos. O nascimento do segundo filho trouxe esperança, mas uma nova tragédia abalou a casa: a morte do enteado mais novo.

Incapaz de lidar com a dor e de apoiar a esposa naquele momento, Paolo voltou definitivamente às drogas. Foi quando conheceu o crack.

A dependência destruiu tudo novamente. Perdeu outro comércio, entrou para a criminalidade, separou-se da família e, tomado pela vergonha, fugiu para Porto Velho.

Foi ali que viveu o período mais sombrio de sua existência.

"Passei um ano e meio morando na rua. Cheguei a pesar apenas 40 quilos. Foi o meu inferno."

Quando esperava morrer

Em uma das noites mais difíceis de sua vida, Paolo decidiu colocar um fim ao sofrimento.

Permaneceu durante horas às margens da rodovia, próximo à rodoviária de Porto Velho, esperando a passagem de um caminhão para se jogar à frente dele.

"O caminhão nunca passou. Hoje acredito que Deus segurou aquele caminhão. Não era o meu momento."

Sem saber exatamente o que fazer, começou a caminhar.

Foram dois dias e duas noites andando pela BR, sob chuva, sem destino, até chegar à cidade de Ariquemes, completamente exausto, faminto e sem qualquer esperança de recomeçar.

O encontro que mudou sua história

Em Ariquemes, Paolo encontrou pessoas que decidiram enxergar nele algo que ele próprio já não conseguia ver.

Recebeu apoio da assistência social e foi acolhido por Dona Marli, que lhe ofereceu abrigo quando ele já não tinha para onde ir.

Foi por meio dela que conheceu o Padre José Leylson, sacerdote que lhe apresentou a Fazenda da Esperança São Francisco de Assis, em Alto Paraíso.

Quando chegou à comunidade, Paolo não acreditava que pudesse mudar de vida. Seu objetivo era apenas descansar alguns dias e recuperar um pouco das forças.

Entretanto, o acolhimento recebido transformou completamente sua maneira de enxergar o mundo.

Ele foi recebido pelos recuperandos e pelo responsável da unidade, Adilson Jaty, encontrando uma rotina baseada na convivência, no trabalho e, principalmente, na vivência diária do Evangelho.

"O amor que encontrei ali desmontou todas as minhas defesas", lembra.

Mais do que abandonar as drogas, Paolo afirma ter encontrado uma família.

O Padre José Leylson tornou-se uma das pessoas mais importantes de sua caminhada.

"Eu era um caso difícil, mas ele nunca desistiu de mim. Um dia me disse: 'Você precisa parar de olhar para o passado e começar a olhar para o futuro, porque Deus ainda tem muito para realizar na sua vida'. Nunca mais esqueci essas palavras."

Foi na Fazenda da Esperança de Alto Paraíso que Paolo reaprendeu a confiar nas pessoas, recuperou a dignidade e reencontrou Deus.

Hoje ele resume aquele período com uma frase que costuma repetir sempre que testemunha sua história:

"A Fazenda da Esperança não me tirou apenas das drogas. Ela me devolveu a vida."

Da recuperação ao chamado missionário

Ao concluir seu ano de acolhimento na Fazenda da Esperança de Alto Paraíso, Paolo percebeu que toda a dor vivida ao longo de décadas poderia ganhar um novo significado. Pela primeira vez, enxergou que sua história não precisava terminar nas drogas ou na marginalidade. Ao contrário: poderia servir para impedir que outras pessoas percorressem o mesmo caminho.

Foi então que decidiu ingressar na Escola de Missionários da Fazenda da Esperança.

Inicialmente, seu destino seria Moçambique, na África. Porém, uma conversa com Nelson Giovanelli, um dos fundadores da Fazenda da Esperança, mudou completamente seus planos.

Nelson o desafiou a voltar justamente para a Itália, o país onde havia conhecido o fundo do poço.

"Ele me disse que minha missão era voltar para casa. Na hora pensei que fosse impossível. Como eu iria voltar para os lugares onde todos conheciam meu passado? Mas entendi que era Deus me chamando."

Em 2023, Paolo embarcou novamente para a Europa.

Dessa vez, porém, não era mais o jovem dominado pelas drogas, pelo tráfico e pela violência. Voltava como missionário da mesma instituição que havia lhe devolvido a vida.

Uma nova família na Itália

Na Fazenda da Esperança da Itália, Paolo encontrou muito mais do que um novo campo de missão.

Encontrou pessoas que passaram a fazer parte de sua família espiritual e fortaleceram sua caminhada de fé.

Entre elas está o Padre Márcio, a quem Paolo faz questão de atribuir um papel decisivo em sua vida missionária.

Segundo ele, o sacerdote foi muito além do acolhimento.

Com sua escuta, orientação e testemunho, ajudou Paolo a compreender que Deus não desperdiça nenhuma história, por mais dolorosa que ela tenha sido.

"Padre Márcio acreditou em mim desde o começo. Caminhou ao meu lado, me orientou e me fez entender que toda a minha história poderia servir para salvar outras vidas. Tenho nele uma grande referência espiritual e humana. Ele foi fundamental para que eu amadurecesse na missão e entendesse que Deus transforma as maiores feridas em instrumentos de evangelização."

Ao lado do Padre Márcio, dos coordenadores da comunidade — entre eles Joel — e de toda a equipe da Fazenda da Esperança, Paolo passou a acolher dependentes químicos e a percorrer diversos países levando seu testemunho.

Hoje ele desenvolve trabalhos missionários na Itália, Alemanha e Espanha, falando em comunidades, paróquias, escolas e encontros da Fazenda da Esperança.

Cada testemunho é também uma forma de agradecer pela vida que recebeu de volta.

Das ruas de Roma ao altar do Papa

Entre todos os momentos vividos como missionário, um permanece gravado de forma especial em sua memória.

Durante o Jubileu da Fazenda da Esperança, realizado em Roma, Paolo participou de uma missão de evangelização na Basílica de São João de Latrão e nas ruas vizinhas.

Enquanto caminhava anunciando o Evangelho, percebeu que estava exatamente nos mesmos lugares onde, anos antes, comprava drogas, traficava e quase morreu em decorrência de diversas overdoses.

"Eu evangelizava nas mesmas ruas onde um dia destruí minha vida. Deus me levou de volta àquele lugar, mas agora para anunciar esperança. Foi ali que compreendi que Ele realmente transforma qualquer história."

A emoção tornou-se ainda maior quando participou das celebrações do Jubileu com o Papa Francisco.

Para quem havia dormido durante anos nas calçadas da Estação Central de Roma, aquele momento parecia impossível.

"O homem que um dia dormia nas ruas, que foi preso tantas vezes, que entrou numa cova esperando morrer, estava agora diante do altar da Igreja, servindo como missionário. Deus fez comigo aquilo que eu jamais poderia imaginar."

É justamente dessa experiência que nasceu o título que Paolo costuma dar ao próprio testemunho:

"Da cova ao altar."

Uma família reconstruída

Enquanto Paolo reconstruía sua vida na missão, outra transformação acontecia no Brasil.

No ano passado, sua esposa começou a frequentar o Grupo Esperança Viva (GEV), movimento ligado à Fazenda da Esperança que acompanha familiares dos acolhidos.

Pouco a pouco, o diálogo entre os dois foi sendo retomado.

As mágoas acumuladas durante anos deram lugar ao perdão.

Os filhos voltaram a conviver com o pai.

Hoje, Paolo está no Brasil justamente para viver esse reencontro.

Mais do que uma visita, trata-se da confirmação de que a recuperação promovida pela Fazenda da Esperança vai muito além da libertação das drogas.

Ela reconstrói famílias.

"Hoje posso abraçar meus filhos, olhar minha esposa nos olhos e agradecer por tudo que Deus fez. Se eu tivesse morrido naquela rodovia em Porto Velho, nada disso teria acontecido."

Uma missão para salvar vidas

Sempre que conclui seu testemunho, ele deixa uma mensagem para quem ainda enfrenta a dependência química ou acredita que não existe saída.

"Se alguém me dissesse, quando eu pesava 40 quilos e esperava um caminhão para acabar com minha vida, que um dia eu seria missionário, pisaria novamente nas ruas de Roma para falar de Deus e estaria diante do Papa, eu chamaria essa pessoa de louca. Mas Deus escreve histórias que nós nunca conseguiríamos imaginar."

BOX | Fazenda da Esperança: uma obra que transforma vidas em dezenas de países

Fundada em 1983, na cidade de Guaratinguetá (SP), a Fazenda da Esperança nasceu da iniciativa do frei Hans Stapel, sacerdote franciscano alemão radicado no Brasil, e de Nelson Giovanelli, integrante do Movimento dos Focolares.

O método de recuperação adotado pela comunidade baseia-se em três pilares: convivência, trabalho e espiritualidade, propondo uma mudança de vida por meio da prática diária do Evangelho e da vida em comunidade.

Ao longo de mais de quatro décadas, a instituição expandiu sua atuação para mais de 20 países, com cerca de 170 unidades espalhadas pelo mundo, acolhendo gratuitamente pessoas em situação de dependência química e outras vulnerabilidades sociais.

Além das comunidades terapêuticas, a obra mantém o Grupo Esperança Viva (GEV), voltado ao acompanhamento e apoio dos familiares dos acolhidos, fortalecendo o processo de reconstrução dos vínculos afetivos.

Para Paolo Sirignano, a Fazenda da Esperança representa muito mais do que um local de recuperação.

"Foi ali que Deus me encontrou quando eu já tinha desistido de mim mesmo." 

Créditos : Mario Quevedo

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